MétodoInflação14 de setembro de 202612 min de leitura

Como um nowcast de inflação funciona, explicado sem jargão

O IPCA de um mês só é publicado uns dez dias depois que o mês acabou. Um nowcast é a tentativa de saber, antes disso, o que já aconteceu. Não é bola de cristal: é contabilidade, com estatística onde a contabilidade não alcança.


Toda a indústria de análise econômica no Brasil convive com uma esquisitice: o número mais importante do calendário — a inflação do mês — chega com atraso. O IBGE encerra a coleta no fim do mês de referência e divulga o IPCA por volta do dia 10 do mês seguinte. Quem precisa decidir alguma coisa antes disso — comprar uma NTN-B, redefinir a projeção de Selic, ajustar um contrato indexado — decide sem o dado.

O nowcast existe para encurtar essa espera. O nome é um trocadilho em inglês entre now (agora) e forecast (previsão): previsão do presente. Não é previsão do futuro. É a reconstrução, em tempo quase real, de um número que já está sendo formado — os preços do mês já estão sendo praticados nas lojas, nas bombas de combustível e nas contas de luz enquanto o mês corre. O nowcast tenta lê-los antes de o estatístico oficial terminar de somá-los.

Este texto explica o mecanismo inteiro: por que a coisa é possível, como cada pedaço é estimado, onde entra estatística de verdade, como se mede a incerteza e quais são os erros que derrubam um nowcast malfeito.

01Por que é possível prever o presente

A resposta curta: porque a fórmula é pública e fixa. O que falta é o insumo, não a receita.

O IPCA não é uma opinião do IBGE sobre o custo de vida. É uma média ponderada, com regra escrita, de variações de preço de 377 subitens — "arroz", "gasolina", "aluguel residencial", "plano de saúde", "corte de cabelo" — coletados em dezesseis áreas urbanas (dez regiões metropolitanas, o Distrito Federal e os municípios de Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís e Aracaju). Os pesos vêm da Pesquisa de Orçamentos Familiares (a POF 2017-2018, na estrutura vigente) e representam quanto as famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos gastam em cada coisa.

Como a estrutura é conhecida, o problema deixa de ser "quanto vai ser a inflação" e passa a ser um problema de preenchimento de planilha:

IPCA do mês = Σ ( peso do subitem × variação de preço do subitem )

O nowcast é o exercício de preencher cada linha dessa soma com a melhor informação disponível hoje, e de ser honesto sobre a qualidade de cada preenchimento. Algumas linhas podem ser praticamente medidas. Outras precisam ser modeladas. A arte está em saber qual é qual — e em não tratar um chute como se fosse uma medição.

Em uma frase

Nowcast não é adivinhar o número: é medir a parte do número que já dá para medir e modelar apenas o resto, sabendo dizer quanta incerteza sobra.

02O detalhe que quase todo mundo ignora: o "mês" do IPCA não é o mês do calendário

Aqui está o ponto mais técnico do texto e, não por acaso, o que mais separa um nowcast decente de um ruim.

O IPCA não compara o preço do último dia do mês com o preço do último dia do mês anterior. No nível mais básico — dentro de cada subitem — ele compara a média dos preços coletados ao longo deste mês com a média dos preços coletados ao longo do mês passado. A coleta se espalha pelos trinta dias.

A consequência é enorme e pouco intuitiva. Suponha que a gasolina suba 10% no dia 25 do mês e fique parada depois. No mês em que o aumento ocorreu, a média mensal sobe pouco — só os últimos dias pegaram o preço novo. No mês seguinte, mesmo sem nenhum aumento novo, a média mensal sobe bastante, porque todos os trinta dias já estão no patamar mais alto. Esse arrasto tem nome: carregamento estatístico (ou carry-over).

Para o nowcast, isso muda tudo:

O mesmo raciocínio explica o que é o IPCA-15. Ele é o mesmo índice, com a mesma metodologia, só que com a janela de coleta deslocada: vai aproximadamente da metade de um mês à metade do mês seguinte. Por isso ele é um antecedente tão bom — não porque "prevê" o IPCA, mas porque literalmente compartilha boa parte das mesmas observações de preço. É sobreposição amostral, não capacidade preditiva.

03As três famílias de preços, e o que fazer com cada uma

Um nowcast bem construído não trata todos os subitens do mesmo jeito. Ele separa a cesta em três grupos, por natureza da informação disponível:

FamíliaExemplosComo se estimaNatureza
Observáveis Combustíveis, alimentos in natura, boa parte de alimentação no domicílio, eletrônicos, vestuário Coleta direta de preços em alta frequência: levantamentos oficiais de combustíveis, cotações de atacado agrícola, varejo online Quase medição
Administrados com calendário Energia elétrica, água e esgoto, tarifas de ônibus e metrô, planos de saúde, taxas públicas Regra conhecida: data do reajuste, percentual homologado, peso na área afetada, dias do mês atingidos Determinístico, condicional à regra
Não observáveis Aluguel, condomínio, serviços pessoais, alimentação fora do domicílio, mão de obra em geral Modelo estatístico: sazonalidade, inércia, indexação passada, salários Previsão de fato

Vale reparar na proporção. A primeira família é grande em peso e volátil — é ela que explica a maior parte da surpresa mês a mês, e é justamente ela que a coleta de alta frequência consegue capturar. A terceira família é mais inercial e previsível, embora seja a que mais interessa ao Banco Central, porque é onde mora a inflação de serviços.

Ou seja: a alta frequência ataca exatamente a parte do índice que mais se move e menos se prevê por modelo. É daí que vem o ganho.

04A ponte: como um preço raspado da internet vira "variação do subitem"

Esse é o passo em que muita gente escorrega, então vale a pena ser explícito.

O preço do arroz num supermercado online não é o subitem "arroz" do IPCA. São coisas diferentes por pelo menos quatro motivos: a amostra de lojas é outra; a geografia é outra; o mix de marcas e embalagens é outro; e o canal online tem dinâmica de preço diferente do balcão físico. Quem compara os dois níveis diretamente está comparando duas réguas distintas.

O que se faz, então, é tratar o dado próprio como um indicador correlacionado e estimar a relação entre ele e o oficial no histórico. É o que se chama de equação-ponte: uma regressão simples em que a variável explicada é a variação mensal do subitem no IPCA e a explicativa é a variação medida pela sua coleta no mesmo período (ajustada para a mesma janela de dias, pelo que vimos no item 02).

variação oficial do subitem ≈ α + β × (variação medida pela sua coleta) + erro

Três leituras importantes dessa equação, sem matemática:

05Como os pedaços viram um número só

Com cada subitem estimado, a agregação é mecânica: multiplica-se a variação pelo peso e soma-se tudo. O produto peso × variação tem nome próprio e é a coisa mais útil do relatório: a contribuição em pontos percentuais.

Pensar em contribuição, e não em variação, reorganiza as prioridades de quem monta o sistema. Um subitem com peso de 0,3% do índice pode subir 10% no mês e contribuir com 0,03 p.p. — irrelevante. "Alimentação no domicílio", com peso perto de 15%, precisa errar apenas 0,3 p.p. na sua variação para mover o índice cheio em quase 0,05 p.p.

A regra prática que decorre disso: o esforço de coleta deve ser alocado por contribuição esperada ao erro, não por curiosidade. Cobrir bem uma dúzia de subitens pesados e voláteis entrega mais precisão do que cobrir mal cem subitens pequenos.

Precisão em nowcast não vem de cobrir tudo. Vem de cobrir muito bem o que pesa e se mexe — e de admitir incerteza no resto.

06O nowcast não é um número: é uma distribuição que encolhe

A propriedade mais característica de um nowcast é que ele melhora ao longo do mês, de forma previsível. No primeiro dia, quase tudo é modelo e herança estatística. No último dia, quase tudo é observação.

Uma trajetória típica de incerteza, no caso do IPCA mensal:

Formalmente, o que está acontecendo é uma atualização sequencial: começa-se com uma crença inicial (o modelo, a sazonalidade, o carregamento) e cada informação nova desloca essa crença proporcionalmente à sua confiabilidade. Informação precisa desloca muito; informação ruidosa desloca pouco. É essa a lógica por trás do filtro de Kalman e dos modelos de fatores dinâmicos, que é como a literatura acadêmica costuma formalizar nowcasting — mas a intuição sobrevive sem a álgebra.

Daí decorre a prática mais importante de comunicação: publicar o intervalo, não só o ponto. "IPCA de 0,32%" sem qualificação é uma afirmação sobre a qual ninguém pode discordar de forma produtiva. "0,32%, com desvio-padrão de 0,08 p.p., sendo 62% da janela de coleta já observada" é uma afirmação sobre a qual se pode operar.

07Como saber se o nowcast presta

Um modelo que nunca foi avaliado fora da amostra é uma narrativa, não um instrumento. Quatro testes bastam para separar um do outro.

Backtest em tempo real, com vintages

O erro mais comum e mais grave é o look-ahead bias: testar o modelo usando dados que, na data simulada, ainda não existiam. Séries econômicas sofrem revisão, estruturas de peso mudam e a sua própria coleta tem dias faltantes. O backtest honesto reconstrói, para cada data passada, exatamente o conjunto de informação que estava disponível naquele dia — e nada além.

Comparação com um benchmark bobo

Todo nowcast deve ser comparado com alternativas triviais: o passeio aleatório sazonal (a inflação deste mês é igual à deste mês no ano passado), a média dos últimos doze meses e a mediana do Focus. Se o sistema não bate consistentemente esses três, ele não está pagando o próprio custo de manutenção — e isso é uma conclusão legítima, não um fracasso.

Curva de erro por horizonte

O erro médio deve cair conforme o mês avança. Se não cai, há informação sendo mal incorporada em algum ponto da cadeia. É o diagnóstico mais barato e mais revelador que existe.

Teste de viés

Erro médio próximo de zero. Um nowcast que erra pouco mas sempre para o mesmo lado tem um problema estrutural — quase sempre uma ponte mal calibrada ou sazonalidade desatualizada — e é perigoso justamente porque parece bom no agregado.

08Os limites, ditos com franqueza

Existem coisas que o método não entrega, e vale ser explícito sobre elas:

09O que sobra de útil

Nada disso é sobre acertar a segunda casa decimal. Um nowcast bem construído entrega três coisas concretas, e nenhuma delas é adivinhação:

  1. Antecipação com incerteza declarada. Saber no dia 18 que o IPCA está rodando em 0,30%, com margem conhecida, é operacionalmente diferente de saber o mesmo número no dia 10 do mês seguinte.
  2. Decomposição, não só nível. A pergunta relevante raramente é "quanto deu". É "de onde veio" — porque alta concentrada em alimentos e combustíveis e alta espalhada por serviços têm implicações opostas para juros, mesmo com o mesmo número no índice cheio.
  3. Um lugar disciplinado para o julgamento. Cenários viram alavancas explícitas — bandeira tarifária, repasse de combustíveis, safra — em vez de ajustes silenciosos na planilha. O analista continua fazendo escolhas, mas passa a ter de registrá-las.

É por isso que o assunto merece um texto de método e não uma nota de rodapé: a maior parte do valor de um nowcast não está no número que ele publica, e sim na disciplina que ele impõe a quem o constrói.

O nowcast diário do IPCA do Macro Strategy Brazil aplica exatamente esse método, com cobertura por subitem e intervalo de confiança atualizados todo dia.

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